por ARNALDO TONI CHAGAS*
O gosto pela vida íntima contrasta com a modernidade do homem atual, que alcançou autonomia
Os reality shows (um exemplo é o Big Brother Brasil) são um fenômeno
midiático que permite reflexão sobre a crise de valores que vivemos
fundada na mercantilização da vida íntima como entretenimento e
espetáculo. Eles refletem a crise da sociedade moderna ocidental, a
propósito de suas profundas transformações; retrata traços e sintomas de
uma cultura individualista, hedonista e imediatista que afeta nossa
subjetividade, identidade e sociabilidade. Assim, seria reducionismo
imputarmos a responsabilidade pelo conteúdo de tais programas apenas a
TV e a seus produtores.Tais programas têm gerado discussões sobre a qualidade da TV brasileira: banalização da vida íntima, sexo e erotismo vulgar e apelativo; exploração da violência, do grotesco, dos dramas humanos, competição, consumismo e o sucesso a qualquer preço. Espetáculos que atrai os olhares de uma multidão de telespectadores passivos e acríticos.
Mas, afinal, o que ativa a curiosidade de milhares de pessoas pela vida alheia e privada? Por que a exposição da vida íntima na mídia atrai tanto o olhar desses telespectadores? Por que acontecimentos relativamente banais, toscos, ignóbeis e abomináveis para muitos, chamam tanto, em contrapartida, a atenção de outros?
O gosto, o interesse e a apreciação pela vida íntima; a experiência de si como interioridade emerge com a dialética público/privado que marcara a modernidade. Logo, a exposição da intimidade é oriunda da exploração da vida privada que ocorreu ao longo dos séculos, especialmente entre os séculos 18 e 19 (1).
Vivemos diante de um novo paradigma; uma transição social e cultural, uma significativa crise de valores e de identidade. Estamos perdendo as fontes de referências de outrora, calcadas em determinados valores “sagrados”, supostamente inquestionáveis, que serviam de balizas para nossas identidades e relações sociais. Tais referências ancoravam as identidades e as formas de pensar, sentir e agir, sobretudo, quando o indivíduo se interrogava: “Quem eu sou no mundo”?
O cultivo, o respeito e a preservação da intimidade eram apenas um dos valores tradicionais importantes para a preservação da privacidade. Era nítido o limite entre o público e o privado. Porém, com o advento da modernidade, frente sua transformação, debilidade e crise, isso tudo entrou em declínio e supressão.
Uma série de instituições relativamente sólidas serviu em outrora de referencial estável para que os indivíduos respondessem a questão sobre a identidade de cada um no mundo (religião, igrejas, família, moral burguesa, o Estado, as ideologias, o sentido de pátria, patriotismo, carreira profissional). Tudo isso, no sentido de ter apoio em uma filiação simbólica básica; ter um sobrenome, uma identidade relativamente estável, uma tradição a zelar, um caminho mais seguro a seguir para alcançar certos ideais sociais e individuais. Os valores, o senso moral e ético a ser imitados, passavam por essa base de orientação. O que era tido como um bem, uma virtude, honra, ideal a ser seguido, o correto/incorreto, o eticamente ou esteticamente desejado e aceitável, justo/injusto, passavam por esta base de sustentação.
Retidão, honestidade, respeito ao outro, solidariedade, pudor, privacidade, seriedade e etc, são exemplos do que era valorizado em termos de vida significativa. Esses referenciais sustentavam os conceitos de ético, moral e estético. Com Morte de Deus, de Friedrich Nietzsche, temos uma crítica aos valores tradicionais ocidentais, e com Desencantamento do Mundo, de Max Weber, uma discussão sobre a relação entre transcendência e ciência. A verdade divina foi substituída pela verdade científica. O desaparecimento da religião tradicional, da moral e da ética, baseada no sagrado, na transcendência, vista como valor supra-humano, decaiu a partir com o advento da modernidade, individualismo e capitalismo.
A modernidade e a cultura do espetáculo
O homem moderno rompeu com os valores tradicionais, crenças e pertenças; alcançou a autonomia e liberdade individual. Daí, ficou só no mundo, desamparado, voltou-se para si, para questões mundanas; criou novos valores e instituições para se orientar. Há uma modificação do quadro de referências tradicionais do plano do imaginário social que sustentava nossa identidade e sociabilidade.
A descoberta do cinema radicalizou a sociedade de massa, de consumo, e o espetáculo ligado ao individualismo narcísico. Em A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord (2), temos a fabricação da alienação dos indivíduos passivos e atomizados pelo espetáculo, pois são submetidos, sem interrogação, a valores e as instituições. As imagens como mercadorias (tudo que era diretamente vivido, vira mera representação) passam a dominar os indivíduos que são atraídos pela ficção e aparência das coisas. Esse processo de comunicação midiática é uma forma de se obter controle político sobre as massas passivas: “Quem fica apenas observando o que vem depois, não age, e assim deve ser o servo e alienado telespectador: um indivíduo apático, conformado, sem liberdade de reflexão crítica. Logo, um devoto de futilidades atraentes da vida privada ante a mercantilização da vida íntima via imagens consumidas”.
A sociedade consumista, espetacular, efêmera, instável e individualista, ante a perda dos valores tradicionais, apresenta traços e sintomas de nossa cultura. Vivemos a passagem da cultura do sentimento para cultura das sensações (corporais, afetivas) em que se visa retirar o máximo das experiências prazerosas individuais. Com essa visão voltada para o indivíduo, o romantismo, e não mais para o social e político como prioridade, temos a moral cínica e hedonista como característica marcante do declínio do homem público e da cultura do espetáculo, do culto a individualidade, ao corpo e ao estético, em detrimento da ética.
O hedonismo, a moral cínica e o niilismo são traços da cultura do espetáculo e do supérfluo. Ora, se os ideais sociais e políticos deixam de ser nossos guias de orientação para a vida, por não ser mais um ideal digno de valor que possa respaldar um futuro melhor, corremos o risco de achar que nada mais vale a pena. Logo, a falta de limites, o excesso e o exibicionismo passam ser a norma. No mundo das aparências é preciso estar em cena; os valores éticos e morais, princípios de boa convivência social, alteridade, pouco importam. O cínico volta-se para si, não segue normas e regras de conduta social; sem pudor, visa vantagens sobre os outros buscando satisfazer seus impulsos e interesses pessoais. Por fim, interrogamos: seria esta cultura de moral cínica que assegura o sucesso do BBB?
*Psicólogo e sociólogo, doutor em Ciências da Comunicação e professor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) em Santa Maria
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